Túnel do Marão: da obra suspensa a uma ligação que mudou uma região

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Esta é a história de quem, na Infraestruturas de Portugal, venceu a incerteza e construiu uma das mais importantes ligações rodoviárias do país.

Em 2013, o futuro do Túnel do Marão estava envolto em incerteza. A obra, iniciada quatro anos antes, encontrava-se suspensa devido às dificuldades financeiras da concessão e à enorme complexidade técnica de um projeto considerado um dos maiores desafios da engenharia rodoviária portuguesa. A montanha permanecia apenas parcialmente perfurada, os estaleiros tinham sido desmontados e já muito duvidavam de que o projeto alguma vez seria concluído.

Foi neste contexto que, em junho de 2013, o Governo decidiu resgatar a concessão e confiar à Infraestruturas de Portugal (à data Estradas de Portugal) a responsabilidade de concluir aquela que hoje é uma das mais importantes infraestruturas rodoviárias do país. O objetivo era claro: criar uma ligação direta entre Amarante e Vila Real, atravessando o interior da Serra do Marão e aproximando o litoral do interior norte. Reforçar a coesão territorial, aumentar a segurança rodoviária, reduzir os tempos de viagem e impulsionar o desenvolvimento económico e social de Trás-os-Montes e Alto Douro eram o destino a alcançar.

Uma missão imediatamente assumida

Com o “sim” da Infraestruturas de Portugal a uma das maiores empreitadas rodoviárias do país, José Faleiro foi nomeado Gestor do Empreendimento. Treze anos depois, continua com um imenso “orgulho por ter sido escolhido para realizar esta intervenção”. Ao entusiasmo juntou-se, porém, a consciência da enorme responsabilidade. Antes de as máquinas regressarem ao terreno, era preciso recuperar o controlo técnico da obra, reavaliar projetos, atualizar soluções construtivas e reorganizar um trabalho que estivera parado durante mais de dois anos.

Também para Alcídio Correia, responsável pela empreitada do sublanço Nó de Ligação ao IP4 / Túnel do Marão, o desafio representou uma verdadeira viragem no percurso profissional. Com experiência em coordenação de projeto, assistência técnica, fiscalização e inspeção na área das obras de arte, considera que assumir uma das empreitadas do Marão foi “tecnicamente desafiante, implicando a coordenação em todas as suas especialidades”.

No terreno, em pleno Marão, o cenário estava longe de ser animador. A paragem prolongada obrigara à desmobilização quase total dos meios existentes, deixando várias estruturas interrompidas a meio da construção. Alcídio Correia não esquece a primeira visita que fez ao local, em fevereiro de 2014. Recorda o impacto de percorrer um túnel ainda “parcialmente escavado, em bruto, sem qualquer revestimento ou ligação entre a frente nascente e a frente poente. Andava-se dentro da Serra num ambiente de mina”.

Durante meses, e longe dos olhares do público, o trabalho de preparação foi intenso e o tempo pressionava. “Era fundamental concluir os trabalhos no prazo fixado até ao dia 31 de março de 2016” e garantir “todos os trabalhos assegurando sempre as condições de segurança de todos os intervenientes”, recorda José Faleiro. Em novembro de 2014, quase um ano e meio após o resgate da concessão, as máquinas regressavam finalmente ao interior da Serra do Marão. Recomeçava a perfuração do túnel. A partir desse momento, a montanha voltou a vibra, máquinas e homens a trabalharam lado a lado. Num ritmo intenso, o Marão transformou-se num dos maiores estaleiros da engenharia nacional.

A André Oliveira coube a coordenação da obra do troço do Túnel. A confiança que a empresa nele depositou traduziu-se num “enorme privilégio e motivo de profundo orgulho profissional”. Ao longo da empreitada acompanhou de perto a complexidade técnica que marcou a empreitada, “desde as fases mais críticas de escavação até à gestão rigorosa de prazos, custos e, sobretudo, das condições de segurança.”

Com duas galerias unidirecionais e cerca de 5,6 quilómetros de extensão, o túnel exigia soluções técnicas altamente especializadas. A geologia imprevisível da serra obrigava a adaptações constantes, monitorização permanente e acompanhamento técnico contínuo. No terreno, centenas de trabalhadores, engenheiros, geólogos e operadores repartiam-se por várias frentes. Enquanto uns escavavam o túnel, outros executavam drenagens, estabilizavam taludes, betonavam estruturas ou erguiam viadutos. Tudo acontecia em simultâneo, num dos mais exigentes empreendimentos rodoviários realizados em Portugal.

“Foi uma abordagem diária de todas as especialidades de projeto, em fases muito díspares de desenvolvimento da intervenção”, recorda Alcídio Correia. Basta olhar para os números para perceber a dimensão do obstáculo: foram escavados perto de 1,4 milhões de metros cúbicos de material, utilizadas mais de 1 700 toneladas de explosivos, aplicados cerca de 350 mil metros quadrados de betão projetado e mais de 180 mil metros cúbicos de betão pronto. Nos momentos de maior intensidade, chegaram a trabalhar em simultâneo 120 mineiros na escavação.

Em outubro de 2015 foi aberta a galeria sul. Poucas semanas depois, a 2 de novembro, a última carga explosiva concluía a escavação da galeria norte. O encontro das duas frentes de escavação, no interior da Serra do Marão, marcou um dos momentos mais simbólicos de toda a empreitada. Para André Oliveira, “a superação das adversidades inerentes a uma obra subterrânea desta magnitude foi particularmente gratificante”. Aquele "aperto de mão" entre as duas frentes simbolizou a superação de uma das maiores conquistas da engenharia portuguesa.

O Marão não se esgota no Túnel

Embora o túnel tenha concentrado grande parte da atenção, o empreendimento incluiu também a construção de um conjunto de viadutos ao longo da A4 entre Amarante e Vila Real. Também aqui, a missão era enorme.
Alcídio Correia relembra o impacto que sentiu ao ver o estado em que se encontrava uma dessas estruturas. “A construção do viaduto havia sido interrompida há mais de dois anos, com o seu tabuleiro a aguardar ligação a 100 metros de altura. O pilar P3, o mais alto, inacessível, havia sido ‘abandonado’, esperando os avanços do tabuleiro.”

Enquanto no interior da montanha se escavava o túnel, à superfície erguiam-se viadutos que venciam vales profundos e ligavam encostas da Serra do Marão, tornando possível uma ligação rodoviária contínua entre Amarante e Vila Real. Entre eles destacou-se o Viaduto V3. Com cerca de 1 000 metros de extensão e pilares que ultrapassam os 100 metros de altura, tornou-se uma das estruturas mais emblemáticas e um símbolo da engenharia portuguesa.

Vencer a montanha com a ajuda da população

Construir o Túnel do Marão nunca foi apenas um teste de engenharia. Foi preciso vencer a montanha, cumprir prazos exigentes, garantir a segurança de centenas de trabalhadores e, ao mesmo tempo, reconquistar a confiança de quem vivia diariamente ao lado de todos os trabalhos.
Alcídio Correia não tem dúvidas de que, para o sucesso do empreendimento, foi essencial manter uma relação próxima com as populações locais, particularmente afetadas pelos anos de suspensão dos trabalhos. Recorda que foi fundamental “falar diretamente com as pessoas, no sentido de ouvir as suas limitações, compreender e inventariar os danos, corrigir erros e conseguir consensos que permitissem o avanço de todas as frentes de trabalho”.

A inauguração: o dia em que o interior norte do país passou a ser já ali  

A cerimónia oficial de inauguração do Túnel do Marão realizou-se a 7 de maio de 2016, mas a abertura ao tráfego estava reservada para a meia-noite do dia seguinte.

Alcídio Correia sorri ao recordar esse momento. “O dia da inauguração foi um dia de realização pessoal e profissional, uma etapa cumprida com sucesso.” Nos dois lados da Serra do Marão vivia-se a expectativa de um momento há muito aguardado. Depois de anos de trabalho, de exigências técnicas, da suspensão dos trabalhos e de uma gigantesca operação de engenharia, estava prestes a abrir uma nova ligação entre o litoral e o interior norte do país.

À meia-noite de 8 de maio, o Túnel do Marão abriu ao tráfego e os primeiros veículos atravessaram a serra. Aquela que durante décadas foi uma barreira natural transformava-se, finalmente, numa porta de ligação entre regiões e num eixo integrado na Estrada Europeia E82. José Faleiro viveu esse momento de forma especial: “foi, sem dúvida, um momento marcante assistir à abertura ao tráfego e ver passar os primeiros veículos.” Também André Oliveira guarda essa noite na memória, destacando o privilégio de “ter participado ativamente na sua concretização” e a “grande satisfação pessoal e profissional” de ver o impacto que a infraestrutura passou a ter “na vida de milhões de utilizadores ao longo da última década”.

Ali, naquela noite, mudava-se muito mais do que um percurso. Portugal passava a dispor de uma nova ligação rodoviária entre o litoral e o interior norte, vencendo uma barreira natural que durante décadas condicionou a mobilidade de pessoas e mercadorias. Entre o Porto e Bragança, a viagem passava a ser cerca de 35 minutos mais curta.

A antiga travessia da Serra do Marão, longa, sinuosa e muitas vezes condicionada pelo mau tempo, dava lugar a uma viagem mais rápida, segura e fiável. Dez anos depois, mais de 45 milhões de veículos já atravessaram o Túnel do Marão, sem que se tenham registado acidentes com vítimas mortais ou feridos graves.

Um trabalho que não terminou com a inauguração

A abertura ao tráfego foi apenas o início de uma nova missão. Hoje, garantir o funcionamento do Túnel do Marão é uma operação permanente, assegurada 24 horas por dia por equipas e sistemas tecnológicos que trabalham para que milhares de automobilistas atravessem diariamente a serra em segurança e com total fiabilidade.

Vasco Gonçalves, Diretor do Departamento de Circulação Rodoviária, é um dos responsáveis por essa missão. Tem a seu cargo o Centro de Controlo de Tráfego, onde é feita a gestão remota dos sistemas de vigilância e controlo do Túnel do Marão. “A exploração do Túnel do Marão integra um conjunto de dimensões operacionais que, embora menos visíveis para o utilizador, são determinantes para o funcionamento seguro da infraestrutura”, explica.

António Macedo, responsável pela Rede de Alta Prestação da IP, sublinha que “os sistemas de segurança e monitorização instalados no Túnel do Marão constituem um pilar fundamental na garantia das condições de segurança da infraestrutura”, estando totalmente “alinhados com as melhores práticas e requisitos regulamentares aplicáveis a túneis rodoviários”.

Mas, como recorda Vasco Gonçalves, há um fator que nenhuma tecnologia substitui: “a componente humana da operação”. Apesar do elevado grau de automação, “a atuação dos operadores do centro de controlo e das equipas no terreno mantém-se determinante na avaliação de ocorrências e na tomada de decisão”.

Essa capacidade de resposta foi posta à prova numa noite de junho de 2017, quando um autocarro se incendiou no interior do túnel devido a uma avaria mecânica. Em poucos segundos, os sistemas detetaram a ocorrência e ativaram automaticamente os protocolos de emergência: encerramento do túnel, ventilação, desenfumagem, sinalização de emergência e mobilização dos meios de socorro.

A atuação coordenada das equipas da Infraestruturas de Portugal, dos bombeiros, das forças de segurança e da proteção civil permitiu evacuar os 20 passageiros e controlar rapidamente a situação, sem vítimas mortais nem feridos graves. Para António Macedo, “este evento evidenciou a importância da deteção precoce, da automatização dos sistemas, da coordenação institucional e da preparação das equipas envolvidas”.

Situações como esta demonstram porque a manutenção preventiva, os simulacros e os exercícios de emergência fazem parte da rotina de quem trabalha na insfraestrutura. António Macedo destaca ainda a importância da “articulação com entidades externas, incluindo forças de segurança, corpos de bombeiros e agentes de proteção civil, suportada em planos de emergência devidamente estruturados e periodicamente testados”.

O Túnel do Marão

O trabalho diário de manutenção, operação e monitorização traduz o compromisso permanente da Infraestruturas de Portugal com a segurança dos utilizadores e com a fiabilidade de uma infraestrutura que, todos os dias, assegura a mobilidade de milhares de pessoas.

Dez anos depois, o Túnel do Marão continua a ser muito mais do que uma empreitada rodoviária. É uma infraestrutura que aproximou o litoral e o interior norte do país, encurtou distâncias, reforçou a segurança rodoviária e contribuiu para o desenvolvimento económico e social da região. Todos os dias facilita a mobilidade de milhares de pessoas e o transporte de mercadorias, afirmando-se como um eixo estratégico para a competitividade do território.

Mas é também o resultado do trabalho, da competência e da perseverança de centenas de profissionais que transformaram um projeto suspenso numa das maiores obras da engenharia portuguesa. Uma infraestrutura com a marca da Infraestruturas de Portugal que aproximou pessoas e territórios, reforçou a segurança rodoviária e continua, dez anos depois, a servir o país.

Reportagem da RTP (Linha da Frente) emitida em abril de 2016, sobre a importância do Túnel do Marão, com o acompanhamento da IP e declarações do André Oliveira.