Arte na Estação de Entrecampos

O património ferroviário edificado tem, nos últimos anos, sido alvo de uma particular forma de desvirtuação: os graffiti não autorizados. A sua prática desregulada, para além de onerar a empresa em custos de manutenção, é causadora de um sentimento de desagrado por parte dos utentes, com impacto negativo na imagem da IP.

Extravasando questões de responsabilidade dominial e de atuação, esta é uma matéria com a qual toda a sociedade deverá estar comprometida: na preservação, na dissuasão, no reporte assim como na reabilitação dos espaços.

Com este enquadramento, e numa ação conduzida pela Infraestruturas de Portugal (IP), em concertação com a IP Património, empresa do Grupo IP, foi desenvolvido um projeto de requalificação da passagem inferior pedonal da Estação de Entrecampos, em Lisboa, que inclui um projeto de arte urbana intitulado “Passagem das Horas” da autoria de Ângela Menezes.

O trabalho foi desenvolvido sobre um mural realizado pela mesma artista em 2013 onde eram representadas 111 pessoas: passageiros; funcionários da estação; maquinistas dos comboios; transeuntes; habitantes do Bairro do Rego, explorando um conceito de afinidade coletiva com o local, e cujo simbolismo se foi perdendo com o tempo em virtude da multiplicação de inscrições que sobre ele foram sendo efetuadas.

Na intervenção agora realizada, perpetuando as diferentes “camadas de memória que se sobrepõem”, destaca-se a frase Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei, retirada da “Passagem das horas” poema de Álvaro de Campos, e que domina todo o painel central.

Nas paredes envolventes, sobre silhuetas, sobressaem extratos da obra poética de Fernando Pessoa, num exercício que procura simultaneamente ser um estímulo à participação do público, à leitura e à escrita.

Reflexo de sociedades que se querem cada vez mais criativas, dinâmicas e democráticas, a execução deste projeto visa também valorizar a proximidade entre as instituições e o meio cultural e artístico, fortalecendo o diálogo entre os cidadãos, e estimulando a “apropriação” dos espaços por parte daqueles que dele usufruem, numa convivência entre serviço, funcionalidade, e manifestações artísticas.

No dia 12 de dezembro, pelas 17H30, será apresentada publicamente a intervenção, numa sessão onde os presentes, apropriando-se de uma pequena parte da obra literária de Fernando Pessoa, serão convidados a deixar a sua “marca” tornando-se em mais um heterónimo.